Aprendendo a escrever…

… MINHA VIDA.

25/fev/2009

“Essa fui eu”, e ainda serei…

(Esse foi um desafio proposto: escrever meu obituário. Vale como perfil.

Os posts mais recendes agora moram aí do lado…)

 

 Dra. Betânia Bohrer.

 

       14/09/1975 – Porto Alegre - RS

       em qualquer dia…

 

 

Denominava-se: Nome de cantora, mas sem o “H”, sem a voz e com acento. Ganhou esse nome entre uma lista de outros menos agradáveis: Estefânia, Tattum e Maria Pia. Conformou-se. Foi por causa da Maria Bethânia, aquela do “H” e da voz, mas seu pai achava que era nome de sapatona. Ao crescer mostrou-se feminina, às vezes.

Filha de gestação e partos sofridos, mas reanimada pelo próprio pai. E assim traçou um destino: teria pulsão de vida e ainda seria salva inúmeras por ele. Teve várias mães.

Foi criada para ser dondoca, mas criou-se uma trabalhadora. Horários de transgressão. Vendia seu corpo barato fazendo plantões à noite, e dormia de dia. Assim como as prostitutas, mas com um trabalho, muitas vezes, menos digno.

Amou, odiou, viveu, sofreu e, por isso, foi feliz.

Viajou o mundo, mas os horizontes ainda assim eram pequenos. Ela sempre se carregou na mala. Esquecia dos pontos de partida e de chegada.

Quase foi bailarina, quase foi gorda, quase foi arquiteta, quase foi mãe. Foi filha. E acabou médica. Mas nunca se pareceu com eles. Pediatra e neonatologista. Cuidava das Barbies que brincava quando criança. Era seu padrão de medida na época. Teve uma infância curta, com pouca ilusão e muita realidade. Aprendeu a cuidar de crianças com livros e não com suas lembranças. Trabalhava em UTI, como homem, mas sem a calma deles na espera. Era ansiosa e por isso cabia neste oficio de ação rápida e imediata.

Sempre foi amiga. Sentia junto. Chorava junto. Adorava junto. E odiava até sozinha.

Comia mal, preferia doce. Adoçava a visão. Forçou-se a comer saladas. E tentou temperar a vida.

Era movida a cafeína.

Fumava, mas carregava perfume no carro. Sempre fumou o último cigarro.

Lutava, como esporte e prazer.

Gremista até morrer, por simples falta de opção. Contava que tinha nascido, crescido e sido criada dentro de um estádio. Era a companhia do seu pai. E aprendeu seus milhares de palavrões lá.

Preferia o Rappa, mas ouvia de tudo. Menos pagode, dizia que não era música. Dançava tudo, até a vida. Queria casar com o Falcão. Ele nunca a viu na platéia, mas se encontravam nas músicas. Ele cantou a trilha sonora da sua vida.

Queria ler cada vez mais, mas lia pouco. Levou livros para viajar o mundo junto. Muitas vezes eles voltaram sem ter visto as paisagens.

Conversava com seus gatos e eles respondiam. Em segredo, só para ela.

Cuidava dos cabelos. Eram os prolongamentos de seus pensamentos e loucuras.

Mística por todos os lados. Rezava para e por tudo. Todas as associações sempre foram bem-vidas. Divertia-se em cartomantes, pena que só acreditava nas coisas boas que ouvia. Não teria aprendido a surfar…

Morou toda a vida em Porto Alegre. A cada viagem para praia fazia planos de mudança.

Casou sabendo que não seria para sempre e nunca trocou o nome. Sempre foi solteira. Mesmo casada.

Separou-se e descobriu tudo o que ainda não tinha sido. E tentou com todas as forças ainda ser.

Mudou de vida todas as vezes que pôde.

Teve amores que a mataram antes e outros que a mantiveram viva até hoje.

Falava duas línguas, mas não a dos homens.

Cansou de ouvir com anos de atraso que teria sido o grande amor da vida deles, se não tivessem sido tão medrosos. Escolhia o par errado: sempre quem tinha medo dela.

Encontrou-se com ela mesma, duas vezes por semana, em anos de terapia. Mas tinha dificuldade de lembrar do que tinha se dito na sessão anterior. Sempre foi durona consigo e mole com os outros.

Furou e rabiscou o corpo, como adorno e lembrança. Sempre sem dor, pois era medrosa. Já nasceu com sardas, mas achava que aquelas milhares de pintas ainda eram pouco. Sempre achou que tudo era pouco. Ficou diferente de seu meio. Sempre se sentiu diferente em seus meios.

Suas amigas descreviam sua casa como um camarim e não como um lar. Quase foi rainha… Foi rainha por alguns momentos…

Um dia escreveram sobre ela, com anéis, brincos e gatos. Chorou pelas verdades e as guardou em um relicário. As verdades duraram pouco.

Foi diferente como sonhava ser, sempre e até no seu fim. Morreu nos braços de yemanjá, aprendendo a surfar no Hawai, depois de fumar mais um último cigarro, como sempre tentou.

Agora não pode mais ouvir a cartomante.

 

 

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